A Septuaginta e os Pais da Igreja
Antes de Agostinho, antes de Jerônimo, antes dos grandes Concílios — havia a Septuaginta. Traduzida do hebraico para o grego entre os séculos III e I a.C., esta foi a Bíblia dos apóstolos, dos evangelistas e dos primeiros cristãos. Foi a partir dela que Paulo escreveu suas cartas, que Mateus citou os profetas, que a Igreja nascente anunciou o Evangelho ao mundo greco-romano.
Os Pais da Igreja não apenas leram a Septuaginta — eles pensaram a partir dela. Foi o texto grego da LXX que formou a linguagem teológica do cristianismo primitivo. Clemente de Alexandria a usou para dialogar com a filosofia grega. Ireneu de Lyon a citou para combater as heresias gnósticas. Justino Mártir a utilizou como argumento central em sua defesa da fé diante dos imperadores. Para todos eles, a Septuaginta não era uma tradução — era a própria voz das Escrituras.
Orígenes, o maior erudito bíblico da Antiguidade cristã, dedicou décadas de sua vida a comparar e preservar este texto em sua monumental Hexapla — obra de seis colunas que colocava lado a lado as versões gregas e o original hebraico. João Crisóstomo, pregando em Antioquia e Constantinopla, comentou os Salmos e os Profetas versículo a versículo a partir da LXX. Agostinho de Hipona, o maior teólogo do Ocidente, defendeu sua autoridade apaixonadamente, reconhecendo nela não apenas uma tradução fiel, mas um texto recebido e consagrado pela Igreja através dos séculos.